terça-feira, 11 de abril de 2017

Animais Noturnos

Data de lançamento: 2016 (Brasil)
Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford
Elenco: Jake Gyllenhaal, Amy Adams, Aaron Taylor-Johnson, Michael Shannon, Laura Linney, Isla Fisher.
Gênero: Drama/Suspense
Duração: 115 minutos
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Universal
Sinopse: Susan é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro. Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward, seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa e filha para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.
Link para o trailer legendado: Animais Noturnos

Eu não sei em que planeta eu estava vivendo até hoje, mas eu nem suspeitava que Tom Ford fosse também cineasta!!! Pausa dramática: como eu não sabia disso e estava perdendo esse trabalho maravilhoso?? Quando eu li que Animais Noturnos é o segundo filme de Tom Ford que capricha na estética visual, lembrei logo de Ridley Scott que veio do mundo da propaganda e produziu maravilhas como Alien e Blade Runner, sendo durante muito tempo uma referência das possibilidades de espetáculo visual no cinema. Eu tenho muitas coisas para comentar sobre o filme e já começo me desculpando porque o post ficou muito longo, mas penso que vale a pena discutir alguns elementos que não estão restritos ao filme, mas também transbordam para o nosso cotidiano.

O fato de Tom Ford ser um estilista com uma visão estética e artística apurada pode ser percebido em cada segundo de Animais Noturnos, até mesmo nas cenas mais repugnantes. Sim, Tom Ford já começa o filme mostrando que o percurso não será fácil e joga na cara do espectador uma discussão complexa sobre padrões de beleza, obesidade, sexualidade e o intrincado caminho que a arte faz ao se apropriar de símbolos e desconstruí-los para revelar as mazelas e hipocrisias da sociedade. O contraste entre a beleza e perfeição do mundo da protagonista está sinalizado nas roupas chiquérrimas, no cabelo e maquiagem impecáveis e na casa bela e fria onde ela vive. As mazelas são os outros, o marido indiferente, o ex-marido ressentido, a mãe insensível, os amigos que vivem de aparências, os funcionários que oscilam entre a bajulação, admiração e a necessidade de consumo desenfreado (uma assistente parece não se importar quando a chefe deixa cair e quebra o seu celular afirmando que o "celular novo já está comprado e a caminho").

O filme inicia com Susan justificando as suas atitudes e criticando os outros, seja quando ela conversa com o marido sobre o ex que nunca atendeu aos seus telefonemas, mostrando-se imaturo e rancoroso, ou nas conversas com a mãe que não compreende as suas aspirações e até mesmo na conversa com os amigos quando ela faz uma crítica ao marido e a atual situação financeira deles. Vemos o ponto de vista dela em relação aos outros e isso começa a mudar quando ela recebe um pacote com o manuscrito de um livro escrito pelo ex-marido com dedicatória para ela. Começa então um filme dentro do filme e acompanhamos a realidade de Susan lendo o livro e realizando outras atividades como ligar para o marido, para a filha, ir ao trabalho etc e o universo do livro, uma história tensa e extremamente violenta que é contada aos poucos, ao mesmo tempo em que surgem flashbacks da relação de Susan e do ex-marido. Parece complicado, não? Mas não é. Surpreendentemente, Ford consegue articular esses três universos com maestria e todos estão interconectados, relacionados e articulados o tempo todo. Não existe desperdício, não há nada dispensável na cenas que se sucedem e nos surpreendem a cada instante.

Li em algum lugar que as pessoas fizeram um comparação entre as história, argumentando que a história do livro era melhor do que o próprio filme. Tsc, tsc, tsc... A encenação do livro nada mais é do que um mergulho profundo no interior de cada um, nos conflitos, ações e, sobretudo, culpa. O que fazer quando cometemos um erro tão drástico que nunca poderá ser perdoado, ou que nunca conseguiremos nos perdoar? Não adianta tentar encontrar a correspondência entre os personagens e concluir que Susan é a transposição da esposa de Tony no livro, ou pensar que Edward é o alter ego de Tony. São as ações que importam e a cada momento um assumirá a personalidade e as ações do dois envolvidos. Por exemplo, o erro e culpa de Tony ao abandonar a esposa e a filha não é o mesmo erro de Susan no passado? Ao assumir a imensa covardia que sempre pontuou a sua vida, não estaria Edward reconhecendo a sua responsabilidade do fim do seu casamento com Susan, através das ações de Tony no livro? Sim, eu sei que parece complicado, mas o filme não deixa margem para confusões na história, embora deixe surgir a ambiguidade dos sentimentos dos envolvidos o tempo todo. Penso que isso é proposital, não somos lineares, mudamos ao longo da vida várias vezes e os sentimentos também são confusos em diversos momentos das nossas vidas.

Através do seu livro, Edward obriga Susan a recapitular a sua vida e repensar as suas atitudes no passado de forma dolorosa em alguns momentos e assustadora em outros. No meio do filme ela já admite para sua assistente que agiu de forma terrível com Edward, mas só vamos saber a dimensão do seu ato já no final. Ao mesmo tempo em que reencontra o seu passado e reflete sobre as suas ações, Susan passa a enxergar de forma mais clara a sua vida atual e o resultado de suas escolhas. Inicialmente, ela tenta se ancorar no marido que faz uma conveniente viagem a trabalho, deixando Susan sozinha com o livro, com os seus pensamentos e sua consciência. Ao retomar o caminho percorrido e construir as suas reflexões, traduzidas de forma didática ou cruel no livro de Edward, ela passa a ter esperança em se reconectar com Edward e obter o seu perdão. O final escolhido por Ford é tão realista quanto a abertura pretendeu ser.

É curioso como Ford distribui a culpa entre todos os envolvidos, tanto na história real quanto na ficção construída por Edward. Isso está posto em pequenos elementos que sinalizam o nosso papel nas consequências de nossas ações na vida: na história do livro, Tony decide viajar com a família usando um carro velho que poderia dar problemas ou não permitir a agilidade necessária em uma emergência. A filha adolescente provoca os estranhos que estão em outro carro e a esposa atua de forma arrogante mesmo quando estão em evidente desvantagem. Em um determinado momento, o xerife chega a perguntar para Tony como eles foram subjugados tão facilmente se nenhum dos bandidos apontou uma arma para eles, evidenciando todo despreparo, covardia e falta de malícia de Tony, características que também pertencem ao autor do livro. Evidentemente, a mensagem que fica não é que as pessoas tiveram o que mereceram, não é esse o ponto. O que o diretor parece querer mostrar com esses detalhes é que não existe culpa unilateral em nenhum fracasso, seja esse no casamento ou na vida. Todos erramos em algum momento e, mesmo quando a ação do outro é imperdoável, nós também contribuímos de alguma forma para aquele desfecho. Saber onde e como erramos parece ser um bom indicativo para melhorarmos nas próximas relações sejam elas amorosas, familiares ou de amizade.

As atuações do filme são maravilhosas e tenho certeza que Animais Noturnos será um daqueles filmes que serão revisitados muitas no futuro. Amy Adams está maravilhosa, Jake Gyllenhaal demonstra todo o desespero e dor de forma fantástica, Aaron Taylor-Johnson colocou uma dimensão realista e repugnante no seu vilão e você realmente tem pavor dele, mas o mais surpreendente de todos, é o xerife interpretado por Michael Shannon que rouba todas as cenas e segura momentos fundamentais do filme. Ele realmente mereceu a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante, pena que a concorrência foi muito acirrada em um ano de excelentes filmes e atuações. Os demais atores também mereciam indicações ao Oscar, principalmente Amy Adams que está maravilhosa em A Chegada também. O fato da academia ter ignorado Animais Noturnos é algo realmente difícil de compreender.

A crítica mais interessante que li sobre o filme foi na Carta Capital com o título "‘Animais Noturnos’ é estudo amargo sobre a culpa disfarçado de suspense". A leitura vale a pena! Carta Capital

sábado, 8 de abril de 2017

Manchester à Beira-Mar

Data de lançamento: 2017(Brasil)
Direção: Kenneth Lonergan
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Matthew Broderick, Kara Hayward, Tate Donovan, Stephen Henderson.
Gênero: Drama
Duração: 137 minutos
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Sony
Sinopse: Lee Chandler é uma espécie de faz-tudo do pequeno complexo de apartamento onde vive, no subúrbio de Boston. Ele passa seus dias tirando neve das portas, consertando vazamentos e fazendo o possível para ignorar a conversa de seus vizinhos. Ele é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai do rapaz, seu irmão, falecer precocemente.
Link para o trailer legendado: Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar aborda um tema espinhoso, não apenas por causa do seu conteúdo, mas por causa do percurso escolhido para realizar essa abordagem. O caminho mais fácil seria a eterna fórmula mocinho-traumatizado-com-a-perda-encontra-no-amor-a-força-para-a-sua-redenção, mas Kenneth Lonergan, diretor e roteirista, escolhe um caminho muito mais árduo e incômodo. Lonergan corajosamente mostra a pior face do luto: não existe nada de bonito na dor da perda de uma pessoa querida, nem todo mundo reage da mesma forma e o recomeço não é para todos. O filme começa com a apresentação do protagonista na qual o diretor enfatiza dois aspectos decisivos para desvendarmos a história de Lee Chandler: o primeiro é o trabalho pesado e humilhante que ele realiza de forma eficiente e resignada, seja carregando lixo, desentupindo privadas ou fazendo pequenos consertos. O outro é a sua personalidade arredia, evidenciada na forma grosseira como ele trata as pessoas ou na provocação para se envolver em uma briga de bar. Lee é aquele tipo de sujeito que está pedindo o tempo todo para ser demitido, surrado ou morto.

A morte do irmão o obriga a voltar para sua cidade natal e já percebemos que existe uma certa tensão no ar: observamos o ponto de vista de Lee ao dirigir o seu carro na chuva com o trânsito pesado até chegar na cidade como uma metáfora da sua resistência ao retorno. Lee funciona como um autômato resolvendo os problemas burocráticos para enterrar o irmão e cuidar do sobrinho. Aqui fica uma sutileza maravilhosa do filme, no início vemos Lee brincando com o sobrinho pequeno de forma bem-humorada e carinhosa com toda a fluidez de uma relação positiva e saudável. No reencontro com o sobrinho adolescente, a relação entre eles é tensa e, embora Lee demonstre uma preocupação sincera com o sobrinho e se empenhe em várias ações que mostram o seu cuidado, alguma coisa parece fora da ordem. Essa sensação é comprovada quando Lee se recusa a assumir a guarda do sobrinho, desejo do seu irmão que foi devidamente registrado no testamento. A surpresa de Lee ao descobrir o desejo do irmão nos parece estranha porque se não existiam outros parentes próximos, a quem o irmão deveria confiar para cuidar do filho na sua ausência?

É importante considerar que a morte do irmão funciona como uma espécie de distrator para o espectador, inicialmente pensamos que Lee é um sujeito com uma personalidade desagradável que sofre com a morte do irmão, o que justificaria as suas ações desajustadas em um contexto no qual quase todos parecem gostar dele. Ao longo do filme, surgem alguns personagens que demonstram incômodo com a presença de Lee e parece que são colocados lá exatamente para desconfiarmos que tem algo mais na história que ainda não foi revelado, mantendo o interesse não apenas em descobrir como os impasses serão resolvidos, mas também para compreender o comportamento de Lee e as razões do seu sofrimento.

Quando finalmente descobrimos o tamanho da tragédia vivida por Lee no passado, torcemos para que ele supere e siga em frente, mas o filme mostra que essa escolha não é tão fácil e que o tempo não cura tudo, sobretudo quando uma enorme culpa insiste em nos devorar por dentro. Se o luto já é difícil e complexo em condições normais, quando sobrecarregado de uma culpa avassaladora (real ou imaginária), pode nunca ter fim. É isso que o diretor mostra no filme e o incômodo vem exatamente das sutilezas, como a caracterização dos personagens e cenários da forma mais natural possível, assim como a naturalidade dos diálogos que poderiam acontecer em qualquer casa, família ou contexto.

Para mim, o maior incômodo foi perceber que Lee não alcança a redenção tão necessária porque ele não deseja a redenção, tudo o que ele mais quer é a punição. E como ela nunca vem, ele segue a vida acreditando ser indigno de qualquer amor, até mesmo o comovente afeto e devoção do sobrinho, ou felicidade. Manchester à Beira-Mar não é um filme fácil e, embora eu não ache que Casey Affleck tenha merecido o Oscar de melhor ator ou que a atuação de Michelle Williams tenha sido esplêndida, é um filme que merece ser visto.

A crítica profissional sobre o filme que eu mais gostei foi a do Plano Crítico.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

La La Land: cantando canções

Data de lançamento: 2017 (Brasil
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, Tom Everett Scott, John Legend, Finn Wittrock, J.K. Simmons, Rosemarie DeWitt.
Gênero: Musical
Duração: 128 minutos
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Paris Filmes
Sinopse: O pianista Sebastian conhece a atriz iniciante Mia e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso.
Link para o trailer legendado: La La Land: cantando canções

La La Land foi o primeiro filme que eu vi dos concorrentes ao Oscar de melhor filme em 2017. Eu demorei para escrever sobre ele por uma razão simples: eu detestei o filme! Detestei ao ponto de ter assistido em duas etapas porque não suportei aguentar tudo de uma tacada só. Sim, as críticas foram favoráveis, o filme ganhou vários prêmios e gente muito bem qualificada achou o filme excelente. Mas será que é essa maionese toda? Bom, não é. Mesmo o crítico mais entusiasmado enaltece muito mais o que o filme deveria ser do que realmente é. O filme tem alguns elementos interessantes, uma fotografia bonita, atores simpáticos, mas é só.

O diretor e roteirista Damien Chazelle fez um filme para homenagear um gênero que está esquecido e é considerado cafona por muita gente, sobretudo a nova geração que tem uma vaga ideia da importância e brilhantismo de musicais como Cantando na Chuva, Sinfonia em Paris, A Roda da Fortuna etc. Como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio e para quem ama os musicais clássicos com cenas memoráveis, La La Land pode parecer um insulto. O maior problema está nas músicas (péssimas e descartáveis) e na fragilidade dos protagonistas durante os números de dança. Em uma das cenas que aparece apenas a sombra dos protagonistas, torna-se evidente que os dançarinos que estamos vendo são dublês, tamanha é a diferença do desempenho em relação aos outros números de dança da dupla. Eu só conseguia pensar em como alguém faz um musical para homenagear um gênero que tem como referência nomes como Fred Astaire, Gene Kelly, Ginger Rogers e escala uma dupla com tantas limitações para dançar??? Talvez tenha sido uma decisão pautada na genialidade do diretor que queria justamente mostrar que qualquer um pode dançar, basta querer e estar apaixonado. Vai saber...

Li sobre o brilhantismo da cena inicial (sim, é boa, principalmente porque os dois atores principais não estão lá dançando), a genialidade da sobrecarga de cores (achei cansativo) e a ambiguidade temporal (o cenário parece de uma época mais antiga, mas todos usam celular e o efeito alcançado com esse "truque" foi que fiquei confusa e não identifiquei a situação como algo brilhante ou inovador). A melhor parte do filme e que eu percebi como algo realmente interessante aparece já no final, quando vemos o que poderia ter sido o relacionamento dos dois protagonistas se a vida tivesse tomado outro rumo. Ali é possível se identificar e se projetar para dentro do filme. Mas é só isso e dura pouco.

Eu encontrei poucas críticas negativas ao filme, coloquei o link de uma delas que tem o sugestivo título de "La La Land”: os críticos devem estar loucos". O Pablo Villaça também faz algumas críticas interessantes ao filme no Cinema em Cena. Os links estão logo a seguir e cada um que tire as suas próprias conclusões!

Blog do Barcinski

Cinema em Cena

domingo, 12 de março de 2017

Um Limite Entre Nós

Data de lançamento: 2016
Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Saniyya Sidney e Mykelti Williamson.
Gênero: Drama
Duração: 140 minutos
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Paramount Pictures
Sinopse: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima. Um homem, que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, acaba frustrado na vida como um catador de lixo.
Link para o trailer legendado: Um limite entre nós

"Cercas" seria o título mais apropriado para o filme que acabou intitulado como "Um limite entre nós" (vou sempre implicar com a liberdade poética/comercial das traduções dos filmes estrangeiros!). Neste caso específico, a tradução esvazia a grande metáfora que conduz o filme: o lixeiro Troy Maxson (Denzel Washington) está construindo uma cerca de madeira no seu quintal a pedido de sua esposa, Rose (Viola Davis) que cobra a conclusão da tarefa em vários momentos do filme. Baseado em uma peça escrita por August Wilson em 1983 - encenada na Broadway em diferentes épocas - o filme parece uma transposição fiel do teatro para o cinema. Li muitas críticas elogiando o resultado e outras criticando a direção, eu não tenho elementos para avaliar tecnicamente o que foi feito, mas funcionou muito bem para mim. O fato é que você percebe que está vendo uma história que foi pensada para o teatro, mas isso não torna o filme cansativo ou lento. Em alguns momentos sentimos falta de ver um determinado evento acontecer: temos apenas o relato dos personagens o que nos obriga a imaginar o que aconteceu e isso parece pouco em algumas situações. Um bom exemplo é a audiência de Troy na justiça para reivindicar o direito de dirigir os caminhões de lixo (apenas os brancos eram motoristas), o fato é relatado por Troy que conta os detalhes, mas não vemos o que aconteceu. Os cenários são poucos (basicamente se resumem ao quintal nos fundos da casa, o interior da casa e a rua), mas isso não enfraquece a história.

Aliás, que história! É uma história sobre a vida, sobre pessoas comuns e como elas são moldadas por seus contextos, suas escolhas e suas consequências. É estranhamente familiar para quem é um pouco mais velho porque a atitude de Troy em relação aos filhos poderia ser identificada em um número significativo de famílias que conheci ao longo da vida. Quem nunca ouviu falar de um pai durão que exigia respeito dos filhos e que era extremamente severo para que os filhos "não se tornassem vagabundos"? Troy é um homem amargurado com a vida e que acredita que a rigidez e a falta de afeto são plenamente compensados com um teto e comida na mesa. Espera e exige respeito de seus filhos e assume que tem que cuidar de todos, as discussões sobre dinheiro demonstram as relações de poder estabelecidas, assim como o fato de cuidar do seu irmão (que sofreu um ferimento na guerra e ficou mentalmente incapacitado) também perpassa a questão financeira e o senso de responsabilidade de Troy. Só vemos Troy ser carinhoso com a esposa, como se a tal cerca que está construindo no seu quintal também limitasse as relações de afeto com os seus filhos, que buscam constantemente a sua aprovação, sem sucesso. Como em tantas famílias, a rigidez e seriedade que ele exige dos outros não foi contemplada no seu passado (ele ficou preso durante muitos anos e teve um filho quando jovem) ou no seu futuro, como veremos ao longo do filme. Ele acredita que merece um tratamento especial dos filhos, da esposa, dos amigos e da vida e está sempre ressentido quando as coisas não acontecem como o planejado. Troy culpa os outros por sua vida dura, por não ter se tornado um jogador profissional de baseball ou por não conseguir manter o irmão dentro de sua própria casa para ser cuidado por ele. O amigo Bono (Stephen Henderson) que pacientemente escuta as história intermináveis contadas por Troy, está constantemente advertindo-o das consequências dos seus atos e é ignorado.

Troy é o tipo de pessoa intransigente e implacável com os erros dos outros, mas que espera e exige compreensão e complacência de todos. Evidentemente, a única coisa que colherá será o desprezo das pessoas, mas dificilmente ele perceberia que é responsável por isso e esse é um ponto importante na história. Troy é resultado do contexto, das circunstâncias e de suas próprias escolhas, mas é difícil determinar em qual momento cada elemento predominou para construir e lapidar a sua personalidade e temperamento difícil. Se Denzel Washington maravilhosamente domina o filme inicialmente carregando toda a carga dramática da história, gradualmente ele cede espaço para os outros que crescem enquanto ele diminui. E ele diminui porque vai revelando as suas imperfeições e incoerências, abrindo espaço para que os outros assumam a posição de decisão e força, seja o filho que se rebela contra a autoridade paterna ou a esposa que despeja toda a sua frustração e raiva em uma cena maravilhosa da diva Viola... É uma história comum, com pessoas comuns que são responsáveis pela construção das próprias cercas que as aprisionam. A libertação pode estar em vários elementos: em uma criança que precisa ser cuidada, na fuga de casa, na prisão ou até mesmo na morte. Entretanto, a mensagem maior no filme é a ideia do perdão, não no sentido de aceitar os erros do outro, mas de compreender as limitações e intenções de cada um. Talvez se fosse possível compreender todo o processo de construção das pessoas com as quais convivemos, não ficaríamos tão vulneráveis e não precisaríamos proteger os nossos sentimentos com armaduras por motivos reais ou imaginários. Poderíamos, finalmente, derrubar as tais cercas que construímos dentro de nós.

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Cinema em Cena e Cinema com Rapadura.

# Li em algum lugar que algumas pessoas acharam inacreditável que uma mulher aceitasse criar o filho da amante do marido na década de 1950, mas eu tenho um caso exatamente como esse na minha própria família. Um dia, apareceu uma mulher com uma menina recém-nascida na porta da casa da minha tia dizendo que não tinha condições de criar a menina e que o pai era o meu tio. Minha tia nunca discutiu a questão, aceitou e criou a menina na sua casa como sua própria filha, para espanto da família inteira. Sim, isso acontece, não foi nos EUA e nem na década de 50, mas no final dos anos 70, em uma cidade pequena do interior do Rio de Janeiro!

segunda-feira, 6 de março de 2017

Lion - uma jornada para casa

Data de lançamento: Fevereiro de 2017 (Brasil)
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, David Wenham, Rooney Mara, Divian Ladwa, Sunny Pawar, Abhishek Bharate, Priyanka Bose
Gênero: Drama
Duração: 118 minutos
País: Austrália, Reino Unido e EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Diamond Films
Sinopse:Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho até de ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.
Link para o trailer legendado: Lion - uma jornada para casa

Lion parece ser um filme com todos os elementos para comover a audiência: baseado em uma história real, crianças abandonadas e sofredoras, final feliz e uma jornada de herói bastante conveniente, mesmo que ela aconteça em um momento da vida no qual não seria mais necessária. Baseado no livro autobiográfico de Saroo Brierley, um menino indiano que ficou perdido na caótica Calcutá aos 5 anos de idade, o filme pode ser dividido em três grandes blocos: a primeira parte com a vida do protagonista na Índia, a segunda parte com Saroo já adulto vivendo na Austrália e a terceira parte, bem curta, com a volta do protagonista para o seu país de origem e o reencontro com sua família. Reparem que eu não usei a expressão "família biológica" que foi bastante repetida na sinopse, nas críticas e até mesmo no próprio livro. Saroo teve uma família que cuidou dele, construiu laços e a base de sua formação: seu idioma e sua cultura até os cinco anos de idade foram construídos por sua família. Ele não foi rejeitado, abandonado ou maltratado por sua família: foi uma série de infortúnios (causados pelo contexto social e econômico) que os separou, provocando grande sofrimento em todos.

A melhor parte do filme é quando a história se passa na Índia onde acompanhamos a dura realidade das crianças que vivem em uma área periférica no interior de um país enorme territorialmente e com grande diversidade cultural e linguística. O filme escolhe evidenciar a pobreza e as políticas públicas ineficientes como o fio condutor da situação de risco do protagonista, mas o que me chamou mais a atenção foi a questão da Educação. Saroo (Sunny Pawar, fantástico!) é filho de uma mãe analfabeta que trabalha carregando pedras, literalmente. Ele não frequenta a escola e mal tem o que comer. O irmão mais velho também parece não frequentar a escola e vive atrás de trabalhos pesados para ajudar a família. A forma como o pequeno Saroo quer também ajudar e se julga forte o suficiente para o trabalho, é comovente, assim como a sua adoração pelo irmão e a relação entre eles. A separação dos dois, provocada por um desencontro, é dolorosa e angustiante. Ao ser afastado de sua cidade natal, da sua família e de tudo que ele conhecia (viajando dentro de um trem vazio por quase 1.600 quilômetros), ele não consegue se comunicar com as pessoas porque não conhece o idioma falado em Calcutá. Apesar de estar em uma cidade imensa e populosa, ninguém parece se importar com uma criança tão pequena sozinha na rua. As pessoas que se aproximam dele parecem ter apenas intenções ruins, aumentando ainda mais a sua desconfiança de todos. De fato, é quase um milagre que um menino como ele tenha conseguido fugir de tantas situações de perigo.

Só depois de dois meses, acidentalmente, alguém consegue fazer alguma coisa por Saroo, levando-o para as autoridades locais que o classificam como "perdido". A partir desse momento o estado começa a agir e Saroo é levado para um orfanato e é iniciada uma busca por sua mãe, dificultada pelas poucas informações que o menino dispõe: ele não sabe o nome da mãe ou em qual cidade ou bairro vivia. A foto de Saroo é colocada nos jornais de grande circulação no país e mais uma vez o fator "Educação" aparece: como a mãe dele leria os jornais sendo analfabeta? Ou ainda: como pessoas tão pobres usariam o pouco dinheiro disponível para comprar jornais que elas não podem ler? A condição iletrada da mãe também afeta os filhos, já que dificilmente encontraríamos uma criança da idade de Saroo em uma condição econômica mais favorável que não soubesse o nome completo da mãe ou o nome da cidade onde vive. Saroo é resultado de seu contexto social e econômico e ao final descobrimos que ele sequer sabia pronunciar o seu próprio nome corretamente, mas uma questão é interessante: se fosse uma criança com condições econômicas e sociais mais favoráveis, quanto tempo duraria em uma cidade como aquela até ser encontrada? Saroo, sem dúvida, escapou de todas as ameaças porque era uma criança esperta e provavelmente calejada com os perigos de uma vida repleta de adversidades.

A solução para o desfecho da primeira parte é Saroo ser adotado, ainda que resistente, por um casal da Tasmânia que surge como uma salvação para a situação de Saroo e de todos os indianos pobres. A nova vida de Saroo na Tasmânia e a relação com os seus novos pais ocorre sem sobressaltos, a família é amorosa e disposta a dar ao menino tudo o que ele não teve até então. O único problema de Saroo na sua nova vida em um lugar paradisíaco (eles moram em frente ao mar, velejam etc) é a chegada de um menino indiano. O novo membro da família tem problemas e ficamos sabendo mais adiante que ele provocou muita dor aos pais, fragilizando especialmente a mãe (Nicole Kidman com umas perucas esquisitas e uma atuação mais esquisita ainda).

Já adulto, Saroo (Dev Patel) surge como um jovem bonitão, descolado e amoroso com os pais que parece nem se lembrar da sua infância, coisa que ele verbaliza várias vezes durante os minutos em que somos apresentados ao Saroo adulto. Ele sai de casa para estudar em outra cidade e parece bem feliz até que a visão de um doce indiano na casa de um colega de turma faz com que ele se lembre da sua família. Sim, você não leu errado, é um doce típico que provoca a reviravolta na trama! Bom, já deu para notar que eu gosto mais do Saroo menino do que o Saroo-Dev-Patel, mas a culpa nem é do coitado. Os equívocos na condução da história são muito irritantes e temos que acompanhar Saroo (que era bonito-amoroso-descolado) se tornar um sujeito chato, obcecado, descabelado, agressivo com a namorada e até mesmo cruel com seu irmão. Em um determinado momento, ele chega a discutir com a namorada dizendo que a família dele está em algum lugar passando necessidade enquanto eles vivem na fartura. Oi? E você levou 20 anos para se preocupar com isso, fio? Essa passagem de cara despreocupado com o herói atormentado por suas raízes não funciona mesmo! É artificial, irritante e totalmente desnecessário. O sujeito disse com todas as letras que não se lembrava da infância e que não tinha interesse em nada relacionado com o seu país de origem, quem sugere que ele procure no Google Earth é um colega e ele imediatamente rechaça a ideia. Nada no comportamento dele sugere qualquer mudança para a construção da jornada do herói e isso é um problema relacionado com a própria narrativa.

O filme parece não querer mostrar que sim, poderia haver algo errado com a vida maravilhosa dele e sequer dá espaço para que as memórias da primeira infância surjam como um elemento poderoso para justificar a inquietação e ansiedade do protagonista. Tudo era perfeito na vida de Saroo adulto em contraponto com sua existência miserável enquanto criança na Índia e o que vai mudar tudo é a visão de um doce. Fica difícil sentir pena do Saroo adulto que se torna insuportável e maltrata as pessoas que diz amar: a resistência dele em contar para os pais adotivos sobre a sua busca, ao ponto de deixar o pai preocupado do lado de fora sem notícias suas, é tão cruel quanto as atitudes do irmão que ele tanto critica.

Quando ele finalmente descobre o bairro onde vivia e vai até lá encontrar a mãe, faz questão de dizer que o lugar dele é na Austrália com a sua família e que a mãe "biológica" sabe disso e "agradece" por tudo que a mãe branca, generosa e rica fez por ele. Oi novamente? Se tem uma coisa que sabemos com certeza é que a mãe dele não teve culpa no que aconteceu e que deve ter sofrido muito com a perda dos dois filhos homens. E sabe o pior? A cena do reencontro dele com a família na Índia é linda, é tanto amor e emoção fluindo que não dá para deixar de cair algumas lagriminhas... Por que insistir no contraponto com a família que o adotou? Qual é a necessidade disso, minha gente? Nenhuma, é claro, assim como a cena final com o encontro das pessoas reais é também totalmente dispensável e quebra completamente o momento lindo que acabamos de assistir.

Como deu para perceber, Lion é um filme com boas qualidades, mas está muito longe de ser perfeito. Se tivesse terminado na primeira parte e colocado nos créditos que Saroo cresceu e usou o Google para reencontrar a sua família perdida (ou colocado só a cena final do reencontro), não teria feito a menor diferença. Mentira, teria sim: teria sido muito melhor!

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Plano Crítico, Cimena com Rapadura e Cinema em Cena.

domingo, 5 de março de 2017

Estrelas Além do Tempo

Data de lançamento: Fevereiro de 2017 (Brasil)
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Theodore Melfi
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons
Gênero: Drama
Duração: 2h e 06 minutos
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Fox
Sinopse: Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial, entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. É lá que estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia da NASA.
Link para o trailer legendado: Estrelas Além do Tempo

Quando um filme anuncia que foi baseado em fatos reais já no cartaz, você supõe que o que ponto mais interessante da narrativa será a história pessoal dos protagonistas, afinal, o que poderia surgir de novo em relação aos fatos históricos? A primeira grande surpresa em Estrelas Além do Tempo é que sim, existem fatos históricos importantíssimos - sobretudo para os negros e mulheres - que ficaram escondidos por décadas! Aliás, o título original é muito mais direto sobre isso, "Hidden Figures" (Figuras Ocultas) expressa a injustiça enorme que foi com pessoas fundamentais para o sucesso americano na corrida espacial.

O mais chocante é que a história não ficou escondida apenas do "grande público" que por razões óbvias não tem obrigação de conhecer os detalhes e os bastidores de uma instituição como a Nasa, mas até mesmo as pessoas da área ignoravam essa história: eu cursei dois períodos de Astronomia na universidade, fui monitora da disciplina durante dois anos consecutivos e nunca tinha ouvido falar sobre Katherine Johnson! Provavelmente havia alguma referência com o sobrenome Johnson na bibliografia, mas nenhum professor ou professora disse algo sobre a trajetória dela.

Outro aspecto histórico que surge no filme como um rolo compressor revela as condições dos negros no começo da década de 1960, tornando mais surpreendente ainda que alguns negros tenham conseguido alcançar posições de destaque na sociedade americana naquele período. O diretor e roteirista Theodore Melfi apresenta os conflitos como pano de fundo ou contexto para algumas situações ao mesmo tempo em que reforça as dificuldades cotidianas para (sobre)viver naquelas condições. A segregação surge na violência de se expulsar uma mulher com os seus dois filhos de uma biblioteca pública ou no discurso emocionado de Mary Jackson (Janelle Monáe) ao entrar com um pedido na justiça para cursar disciplinas em uma universidade que só permite brancos.

Não que a condução do filme não tenha os seus problemas, principalmente ao tentar justificar algumas situações ou reforçar as dificuldades. Por exemplo, para explicar as implicações da falta de um banheiro para negros no prédio onde Katherine trabalha, as cenas são tão repetitivas que cansam e não ajudam muito na construção do desfecho com o desabafo da protagonista contra as injustiças que sofria. Aliás, as excelentes atuações dão força ao roteiro e amenizam os eventuais problemas da narrativa. Kevin Costner é uma surpresa, sua atuação foge do caminho fácil de uma caricatura do chefe homem, pai de família, branco e esforçado. Ele consegue construir um contraponto interessante com os outros membros de sua equipe não porque tem consciência do que acontece ao seu redor, mas porque está tão focado em alcançar o sucesso da missão que não tem tempo ou disposição para mediar conflitos ou observar o comportamento da sua própria equipe. Como já disse Hannah Arendt, a omissão também é um caminho para a banalização do mal. Coube ao personagem de Jim Parson expressar o viés racista e ressentido que existia em todos os membros da equipe, mas isso é feito sem o vigor necessário e, mais uma vez, soa repetitivo e irritante. Já Kristen Dunst é mais eficiente e exibe competência como a chefe fria e indiferente, quase cruel em alguns momentos, mas que tem que engolir o sucesso das suas subordinadas negras.

E as três lindas? O que dizer sobre Taraji, Octavia e Janelle? Que elas estão fantásticas? Que arrasaram? Que mereciam aplausos por três horas seguidas deixando todos com as mãos inchadas? Siiiiimmmmm! Cada uma desenvolveu sua personagem de um jeito e as personalidades se complementam e reforçam a coesão entre elas porque mesmo trabalhando em áreas separadas, elas são um time. Se Katherine é a mais brilhante na sua área, é também a mais frágil por conta de sua vida pessoal (ela ficou viúva com duas filhas pequenas). Dorothy é a mais decidida e disposta a quebrar os muros do sistema, o que fica evidente quando ela rouba um livro da biblioteca sobre linguagem de programação Fortran depois de ser expulsa do lugar apenas por ser negra. A Mary interpretada por Janelle Monáe é uma delícia: inteligente, desaforada, decidida e que tem um momento lindo ao discursar na frente do juiz em busca de seus direitos. É dela também uma das falas mais importantes do filme: “toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a posição da linha de chegada”.

O que a história das três mulheres consegue mostrar na tela é que não importa o quanto inteligente e brilhante uma pessoa negra pudesse ser, ainda assim, ela seria tratada como inferior pela mais medíocre pessoa branca e o sistema criaria várias formas legais ou institucionais para impedir o seu crescimento. Afinal, como fica a falácia da meritocracia se você não pode se inscrever em uma determinada instituição porque legalmente só brancos são aceitos e isso é uma exigência para ascender na sua carreira? "Anhéin, nada a ver, isso aconteceu na década de 1960"... É isso mesmo, demonho, APENAS há 50 anos existiam banheiros para pessoas brancas e pessoas negras e nós acreditando que o apartheid na África do Sul é que era o problema da humanidade!

Um dos grandes méritos do filme é mostrar algo que já percebemos nas nossas discussões sobre cotas para as minorias no Brasil: a questão racial não é apenas uma herança cultural, existe uma resistência e receio profundo das pessoas brancas que querem continuar a garantir os seus privilégios. Em tempos de ignorância generalizada e conversas equivocadas sobre "vitimismo" e "racismo reverso", é um filme imperdível.

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Cinema em Cena, Plano Crítico

sexta-feira, 3 de março de 2017

Capitão Fantástico

Data de lançamento: Dezembro de 2016 (Brasil)
Direção: Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, George Mackay
Gênero: Drama
Duração: 118 minutos
País:EUA
Idioma:Inglês
Distribuidor:Universal
Sinopse: Em meio à floresta e isolado da sociedade, um devoto pai dedica sua vida a transformar seus seis jovens filhos em adultos extraordinários. Mas, quando uma tragédia atinge a família, eles são forçados a deixar seu paraíso e iniciar uma jornada pelo mundo exterior - um mundo que desafia a ideia do que realmente é ser pai e traz à tona tudo o que ele os ensinou.
Link para o trailer legendado: Capitão Fantástico

Indie, hippie, hipster, mistura de Na Natureza Selvagem com Pequena Miss Sunshine, crítica ao modo de vida hippie tardio etc, são os rótulos com os quais vários artigos etiquetaram o filme Capitão Fantástico. O problema é que o filme é exatamente sobre a urgência em nos livrarmos dos rótulos e das fórmulas estabelecidas pela sociedade para nos moldar e (con)formar. A questão central apresentada no filme é a possibilidade de não se inserir na sociedade com a qual não compactuamos com os seus valores, filosofia e modo de vida. A discussão envolve a criação dos filhos exatamente porque é o elemento que torna tudo mais complexo. Um casal que renega o convívio social e vai viver isolado, não enfrentaria grandes dilemas além da falta de conforto ou dificuldades práticas no cotidiano, mas quando a formação de seis crianças é questionada, tudo fica mais difícil. É justamente aí que o diretor acerta ao mostrar que todas as escolhas tem os seus prós e contras e que cabe aos adultos envolvidos atentarem para o sucesso ou fracasso de suas decisões, inclusive aqueles que vivem sob o efeito manada e seguem a multidão sem discussão.

A história é centrada na figura do pai, não apenas por ser a base de todas as decisões envolvidas no modo de vida da família, mas porque é ele que passa por um processo gradual de reflexão e questionamento sobre as suas escolhas. O filme tem momentos de exageros no qual o diretor pesa a mão sem necessidade, como a entrada da família excêntrica no velório, mas tem bons momentos, como a discussão sobre o livro Lolita, a surpresa das crianças pequenas ao ver tantas pessoas fora do peso e a comemoração do dia do Noam Chomsky.

No confronto com a irmã sobre a criação dos filhos, fica evidente a superioridade intelectual das crianças criadas no meio do mato, mas a questão é mais complexa ainda: por que razão o modelo socialmente aceito para educar os filhos é tão medíocre e mesmo assim considerado ideal? Ser como os outros é uma escolha ou uma imposição social? O filme não facilita a vida do espectador com receitas fáceis, o fanatismo religioso encenado pela família para escapar do policial que pergunta por que as crianças não estão na escola, é emblemático. Não mandar os filhos para escola por motivos religiosos é aceito, mas por questões ideológicas é rechaçado e pode ser, inclusive, criminalizado.

O processo de reflexão de Ben (Viggo Mortensen está maravilhoso e merecia muito ganhar o Oscar) não começa apenas quando ele sai do seu esconderijo para enfrentar o mundo exterior, a doença mental da esposa é o início de sua desconstrução porque a fuga de uma sociedade consumista, com valores tão deturpados, não foi suficiente para que ela não ficasse doente. Fica evidente que adotar um estilo de vida alternativo não significa que tudo estará sob controle e que todos os problemas serão resolvidos. O próprio problema que move a família, impedir o enterro cristão da mãe que deixou por escrito o que queria no momento da sua morte e sua vontade foi ignorada pelos próprios pais, é causado por um aspecto contraditório: quem pagou todas as despesas do tratamento dela foi o pai e por essa razão ele teve o poder de decidir o que fazer no enterro da filha. Apesar de injusto, não é difícil compreender o ressentimento dos pais que acabaram de perder a única filha e que atribuem a sua morte ao marido maluco. Embora equivocados, eles são amorosos, elemento muito bem demonstrado na cena do velório quando a avó beija os netos que sequer tinha conhecido com amor, ternura e, evidentemente, muita dor.

Outra situação da qual Ben não escapa, mesmo criando os filhos de forma tão diferenciada, é a revolta típica do filho pré-adolescente que direciona toda a sua dor para culpar o pai por todos os infortúnios que sofreram. A decisão de não transformar o avô em um vilão foi muito acertada porque as decisões soam melhor como escolhas e não como consequências de pressões externas ou falta de opção. E o mais importante: em todas as situações, o que prevalece é o amor e essa é a mensagem essencial do filme. Não importa como você decide criar os seus filhos ou quem está certo ou errado no modelo de formação, o importante é o amor, o respeito e a liberdade. Aqui está o elemento mais transgressor do filme, mostrar que mesmo quando é necessário ceder e compactuar com algumas convenções sociais, você pode escolher o caminho da liberdade. Para quem se sente seguro e feliz apenas reproduzindo o status quo deve soar como um soco no estômago...

Minha crítica profissional preferida sobre o filme: Cinema em Cena



quarta-feira, 1 de março de 2017

Moonlight: sob a luz do luar

Data de lançamento: Outubro de 2016
Direção: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Alex R. Hibbert, Mahershala Ali, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Janelle Monáe, Jaden Piner, Jharrel Jerome, André Holland
Gênero: Drama
Duração:111 min
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Diamond Films

Link para o trailer legendado: Moonlight: sob a luz do luar

Sinopse: Black trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami.

Moonlight é o tipo de filme que chega detonando tudo: as injustiças no nosso modelo de sociedade, a falácia da meritocracia, o sistema educacional, a maternidade, os modelos de família, a amizade e os estereótipos dos traficantes, dos gays e dos viciados.O filme mostra sem filtros que a ideia de que o sucesso depende apenas do indivíduo e que é possível nos colocar no lugar do outro e entender o tortuoso percurso que definiu a vida de alguém, não passa de uma grande falácia perpetuada por quem quer apenas se sentir confortável com as injustiças e garantir os seus privilégios. O filme é belíssimo e a fotografia é praticamente o eixo no qual a potente história contada por Jenkins ganha força e transforma toda forma de violência em delicadeza. O roteiro do diretor Barry Jenkins baseado na peça de Tarell Alvin McCraney, intitulada "In Moonlight Black Boys Look Blue" , mostra o que é ser um menino doce e bom que precisa crescer praticamente por sua própria conta, com uma mãe viciada em drogas que não faz o básico que é cuidar do seu filho. O fato de "ser diferente" mesmo sem saber exatamente o que isso significa, faz com que o menino sofra violência constante dos colegas, dos vizinhos e da própria mãe.

O filme é estruturado em três capítulos e cada um recebe o nome do personagem principal em diversas fases da sua vida. O filme começa acompanhando um menino magro e faminto chamado Little que é constantemente perseguido por meninos maiores por ser delicado demais. Em uma das perseguições, ele encontra Juan (Mahershala Ali), traficante das redondezas que protege e alimenta o garoto, demonstrando afeto e preocupação com a situação dele ao ponto de levá-lo para a sua própria casa que divide com a namorada Teresa (Janelle Monáe). Juan acompanha o menino em diversas situações, tornando-se uma espécie de porto seguro e fonte de afeto. É ele que ensina Little a nadar e que diz que ele não deve se preocupar se é gay ou não. Aliás, é impossível não se emocionar com a cena que certamente valeu o Oscar para o incrível trabalho de Ali, quando ele confessa que vende drogas para a mãe de Little e que é diretamente responsável por toda a dureza que o menino enfrenta na vida. O diretor construiu a relação de Juan e Little com grande habilidade, trazendo de forma poética a explicação para o título da obra que fundamentou o filme, com um diálogo que soa como uma espécie de advertência para os meninos negros ficarem longe do crime: "sob a luz da lua, meninos negros parecem azuis".  

No segundo capítulo, nosso protagonista surge adolescente usando o seu nome de batismo, Chiron. Temos o desaparecimento de Juan, apenas insinuado de forma cínica pela mãe durante uma briga com o filho, nos levando a deduzir que ele morreu de forma violenta. As perseguições e agressões acontecem agora dentro da escola e de casa, com a mãe afundando nas drogas e usando a prostituição para financiar o seu vício. Chiron continua solitário e sem saber exatamente quem é, buscando ficar invisível para fugir das agressões, do julgamento dos outros e dos questionamentos que faz a si mesmo. Os únicos momentos bons em sua vida surgem na sua relação com Teresa (sempre afetuosa) e a proximidade com o seu único amigo, mas que só acontecem em raros momentos.

O diretor faz questão de deixar bem evidente a sua crítica ao sistema educacional que ainda poderia ser um fio de esperança para uma vida melhor ou para promover um pouco de equidade, mas a escola apenas reforça a brutal desigualdade e não age, mesmo quando a violência acontece dentro do seu espaço na frente dos professores. Nesse momento, com toda delicadeza possível, é mostrada a descoberta sexual de Chiron e as implicações disso em um contexto de abandono, violência e falta de oportunidades e até mesmo de esperança. O que se espera de meninos negros das periferias que não seja a violência, o crime e a morte? É impressionante como todos encontram o único destino que parece surgir em suas trajetórias: por diferentes motivos todos vão acabar presos, assassinados, consumidos pelas drogas ou estarão em situação de risco. Quando Chiron sai da escola algemado depois de finalmente reagir à violência dos seus agressores, fica evidente que o sistema falhou terrivelmente com o menino meigo que se sentia feliz ao dançar em frente do espelho.

Surge então o último capítulo onde toda a violência simbólica ou real sofrida na infância e na adolescência transforma-se em delicadeza, afeto e acertos de contas há muito necessários. Black é a terceira fase do protagonista, um rapaz agora forte e bonito que saiu da prisão, mudou de cidade e atua no tráfico, exatamente como Juan, indicando que os exemplos e as referências marcaram profundamente o menino. O retorno de Black para a cidade é provocado por um telefonema de um amigo com o qual ele nutre uma relação de amor e desejo. Nesse momento, ele aproveita para visitar a mãe que está internada em uma clínica de reabilitação e despeja toda a sua mágoa e decepção em poucas palavras que são compensadas com gestos e lágrimas, mostrando toda a dificuldade do rapaz em transformar a sua angústia em palavras. Black é o conjunto de todos os elementos da sua vida, o seu silêncio e desconfiança de todos traduz o pior que sempre está por vir e que ele, de alguma forma, parece conseguir prever. O encontro final com o amigo é ao mesmo tempo simples e intenso porque materializa toda a dificuldade de construção da própria identidade em um contexto tão hostil: afinal, o que é ser negro, pobre e homossexual na periferia de uma sociedade que não dá margem para as diferenças? Essa foi a pergunta brilhantemente respondida em Moonlight.

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Cinema em Cena, Moonlight.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Chegada (Arrival)

Data de lançamento: Novembro de 2016
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker
Gênero: Ficção científica
Duração: 1h e 56 min
País: EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Sony Pictures
Link para o trailer: A Chegada
Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.

Vou começar o blog palpitando sobre o filme A Chegada (do canadense Denis Villeneuve), porque de todos os filmes da safra do Oscar 2017, foi o que mais me surpreendeu. Não que o Oscar defina os nossos interesses, afinal o filme nem teve indicações para as categorias mais importantes, incluindo a grande injustiça com Amy Adams que merecia a indicação de melhor atriz, mas vou comentar os filmes que concorreram ao Oscar neste ano primeiro.

A Chegada é o tipo de filme que você tem certeza que sabe o que vai encontrar ao assistir, mas ele faz você rodopiar e ficar sem chão. Você tem certeza absoluta do que está vendo, acredita que compreendeu o roteiro e sabe o que aconteceu, mas no meio do filme já não sabe de nada... Sente medo e curiosidade ao ver os alienígenas, quer que o filme mostre os detalhes dos seres extraterrestres, mas ao mesmo tempo agradece por não ter que ver. Entretanto, por mais que o filme seja um espetáculo visual belíssimo, é a estrutura da narrativa e suas surpresas que nos conquistam.

O filme já começa mostrando a dolorosa perda da Dra. Louise Banks e sua aparente apatia com o que está acontecendo ao seu redor, mesmo que seja a surpreendente chegada de naves alienígenas, seguida de sua convocação para ajudar os militares na tradução e compreensão da linguagem dos alienígenas. A partir daí vemos o trabalho de Louise em campo, como ela se relaciona com as dificuldades imensas em compreender um idioma que não possui parâmetro algum e sua habilidade (ou falta dela) para se relacionar com as pessoas que a cercam. A deterioração física e mental de Louise é visível e ao mesmo tempo angustiante, atribuímos a sua fragilidade ao seu passado e as pressões do presente, mas não é exatamente assim que a história se apresenta. A ideia de que mudamos a nossa estrutura mental ao aprender um novo idioma, absorvendo a forma como a outra cultura percebe o mundo e lida com ele, nos faz temer o que virá a seguir. Quanto mais Louise se aprofunda na linguagem dos Heptapods (como os extraterrestres são chamados), mais ela é inundada com lembranças/visões da sua vida familiar com todos os momentos de amor, conflitos e felicidade que terminam em uma dor tão imensurável que justifica totalmente a apatia dela diante da vida.

A sensibilidade do filme ao misturar a tragédia pessoal da linguista Louise Banks e a iminente catástrofe para a humanidade com a chegada dos extraterrestres, nos faz suspirar e temer o passado e o futuro que se desenha. Tudo isso até compreendermos que não existe passado, presente e futuro, o que sabemos não pode ser contido na nossa linearidade da vida.

O filme foi baseado no conto de Ted Chiang, "História da sua vida" que faz parte do livro "História da sua vida e outros contos" e não sosseguei enquanto não comprei o livro e li o conto. A narrativa é dolorosa, Louise escreve para a filha enquanto explica a conexão entre a chegada dos extraterrestres e a existência da filha. Em uma passagem do texto, ela afirma que o telefonema do exército sobre os extraterrestres foi o segundo telefonema mais importante da vida dela, o primeiro, é claro, foi sobre a filha. Isso acontece logo nas primeiras páginas e é um grande trunfo do texto: não existe suspense desnecessário, o autor entrega a tragédia logo no início e seguimos a protagonista testemunhando a sua dor e interessados em seu destino. O texto é uma delícia e, estranhamente, o filme completa o texto e o texto completa o filme. É possível compreender um sem o outro, mas as respostas que faltam em cada um foram complementadas pelo meio utilizado para contar a história. O texto revela elementos que não estão no filme e vice-versa.

A Chegada é um filme que não nos faz pensar apenas na história que foi contada e nas implicações do seu desfecho, mas também em como seríamos afetados se estivéssemos no mesmo contexto da protagonista ou mesmo na nossa percepção temporal das nossas próprias vidas. É um filme instigante e que nos faz refletir durante um bom tempo. Ao final de tudo, você se pergunta: que escolha eu faria?

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Plano Crítico (com spoilers) e Cinema em Cena.