segunda-feira, 6 de março de 2017

Lion - uma jornada para casa

Data de lançamento: Fevereiro de 2017 (Brasil)
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, David Wenham, Rooney Mara, Divian Ladwa, Sunny Pawar, Abhishek Bharate, Priyanka Bose
Gênero: Drama
Duração: 118 minutos
País: Austrália, Reino Unido e EUA
Idioma: Inglês
Distribuidor: Diamond Films
Sinopse:Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho até de ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.
Link para o trailer legendado: Lion - uma jornada para casa

Lion parece ser um filme com todos os elementos para comover a audiência: baseado em uma história real, crianças abandonadas e sofredoras, final feliz e uma jornada de herói bastante conveniente, mesmo que ela aconteça em um momento da vida no qual não seria mais necessária. Baseado no livro autobiográfico de Saroo Brierley, um menino indiano que ficou perdido na caótica Calcutá aos 5 anos de idade, o filme pode ser dividido em três grandes blocos: a primeira parte com a vida do protagonista na Índia, a segunda parte com Saroo já adulto vivendo na Austrália e a terceira parte, bem curta, com a volta do protagonista para o seu país de origem e o reencontro com sua família. Reparem que eu não usei a expressão "família biológica" que foi bastante repetida na sinopse, nas críticas e até mesmo no próprio livro. Saroo teve uma família que cuidou dele, construiu laços e a base de sua formação: seu idioma e sua cultura até os cinco anos de idade foram construídos por sua família. Ele não foi rejeitado, abandonado ou maltratado por sua família: foi uma série de infortúnios (causados pelo contexto social e econômico) que os separou, provocando grande sofrimento em todos.

A melhor parte do filme é quando a história se passa na Índia onde acompanhamos a dura realidade das crianças que vivem em uma área periférica no interior de um país enorme territorialmente e com grande diversidade cultural e linguística. O filme escolhe evidenciar a pobreza e as políticas públicas ineficientes como o fio condutor da situação de risco do protagonista, mas o que me chamou mais a atenção foi a questão da Educação. Saroo (Sunny Pawar, fantástico!) é filho de uma mãe analfabeta que trabalha carregando pedras, literalmente. Ele não frequenta a escola e mal tem o que comer. O irmão mais velho também parece não frequentar a escola e vive atrás de trabalhos pesados para ajudar a família. A forma como o pequeno Saroo quer também ajudar e se julga forte o suficiente para o trabalho, é comovente, assim como a sua adoração pelo irmão e a relação entre eles. A separação dos dois, provocada por um desencontro, é dolorosa e angustiante. Ao ser afastado de sua cidade natal, da sua família e de tudo que ele conhecia (viajando dentro de um trem vazio por quase 1.600 quilômetros), ele não consegue se comunicar com as pessoas porque não conhece o idioma falado em Calcutá. Apesar de estar em uma cidade imensa e populosa, ninguém parece se importar com uma criança tão pequena sozinha na rua. As pessoas que se aproximam dele parecem ter apenas intenções ruins, aumentando ainda mais a sua desconfiança de todos. De fato, é quase um milagre que um menino como ele tenha conseguido fugir de tantas situações de perigo.

Só depois de dois meses, acidentalmente, alguém consegue fazer alguma coisa por Saroo, levando-o para as autoridades locais que o classificam como "perdido". A partir desse momento o estado começa a agir e Saroo é levado para um orfanato e é iniciada uma busca por sua mãe, dificultada pelas poucas informações que o menino dispõe: ele não sabe o nome da mãe ou em qual cidade ou bairro vivia. A foto de Saroo é colocada nos jornais de grande circulação no país e mais uma vez o fator "Educação" aparece: como a mãe dele leria os jornais sendo analfabeta? Ou ainda: como pessoas tão pobres usariam o pouco dinheiro disponível para comprar jornais que elas não podem ler? A condição iletrada da mãe também afeta os filhos, já que dificilmente encontraríamos uma criança da idade de Saroo em uma condição econômica mais favorável que não soubesse o nome completo da mãe ou o nome da cidade onde vive. Saroo é resultado de seu contexto social e econômico e ao final descobrimos que ele sequer sabia pronunciar o seu próprio nome corretamente, mas uma questão é interessante: se fosse uma criança com condições econômicas e sociais mais favoráveis, quanto tempo duraria em uma cidade como aquela até ser encontrada? Saroo, sem dúvida, escapou de todas as ameaças porque era uma criança esperta e provavelmente calejada com os perigos de uma vida repleta de adversidades.

A solução para o desfecho da primeira parte é Saroo ser adotado, ainda que resistente, por um casal da Tasmânia que surge como uma salvação para a situação de Saroo e de todos os indianos pobres. A nova vida de Saroo na Tasmânia e a relação com os seus novos pais ocorre sem sobressaltos, a família é amorosa e disposta a dar ao menino tudo o que ele não teve até então. O único problema de Saroo na sua nova vida em um lugar paradisíaco (eles moram em frente ao mar, velejam etc) é a chegada de um menino indiano. O novo membro da família tem problemas e ficamos sabendo mais adiante que ele provocou muita dor aos pais, fragilizando especialmente a mãe (Nicole Kidman com umas perucas esquisitas e uma atuação mais esquisita ainda).

Já adulto, Saroo (Dev Patel) surge como um jovem bonitão, descolado e amoroso com os pais que parece nem se lembrar da sua infância, coisa que ele verbaliza várias vezes durante os minutos em que somos apresentados ao Saroo adulto. Ele sai de casa para estudar em outra cidade e parece bem feliz até que a visão de um doce indiano na casa de um colega de turma faz com que ele se lembre da sua família. Sim, você não leu errado, é um doce típico que provoca a reviravolta na trama! Bom, já deu para notar que eu gosto mais do Saroo menino do que o Saroo-Dev-Patel, mas a culpa nem é do coitado. Os equívocos na condução da história são muito irritantes e temos que acompanhar Saroo (que era bonito-amoroso-descolado) se tornar um sujeito chato, obcecado, descabelado, agressivo com a namorada e até mesmo cruel com seu irmão. Em um determinado momento, ele chega a discutir com a namorada dizendo que a família dele está em algum lugar passando necessidade enquanto eles vivem na fartura. Oi? E você levou 20 anos para se preocupar com isso, fio? Essa passagem de cara despreocupado com o herói atormentado por suas raízes não funciona mesmo! É artificial, irritante e totalmente desnecessário. O sujeito disse com todas as letras que não se lembrava da infância e que não tinha interesse em nada relacionado com o seu país de origem, quem sugere que ele procure no Google Earth é um colega e ele imediatamente rechaça a ideia. Nada no comportamento dele sugere qualquer mudança para a construção da jornada do herói e isso é um problema relacionado com a própria narrativa.

O filme parece não querer mostrar que sim, poderia haver algo errado com a vida maravilhosa dele e sequer dá espaço para que as memórias da primeira infância surjam como um elemento poderoso para justificar a inquietação e ansiedade do protagonista. Tudo era perfeito na vida de Saroo adulto em contraponto com sua existência miserável enquanto criança na Índia e o que vai mudar tudo é a visão de um doce. Fica difícil sentir pena do Saroo adulto que se torna insuportável e maltrata as pessoas que diz amar: a resistência dele em contar para os pais adotivos sobre a sua busca, ao ponto de deixar o pai preocupado do lado de fora sem notícias suas, é tão cruel quanto as atitudes do irmão que ele tanto critica.

Quando ele finalmente descobre o bairro onde vivia e vai até lá encontrar a mãe, faz questão de dizer que o lugar dele é na Austrália com a sua família e que a mãe "biológica" sabe disso e "agradece" por tudo que a mãe branca, generosa e rica fez por ele. Oi novamente? Se tem uma coisa que sabemos com certeza é que a mãe dele não teve culpa no que aconteceu e que deve ter sofrido muito com a perda dos dois filhos homens. E sabe o pior? A cena do reencontro dele com a família na Índia é linda, é tanto amor e emoção fluindo que não dá para deixar de cair algumas lagriminhas... Por que insistir no contraponto com a família que o adotou? Qual é a necessidade disso, minha gente? Nenhuma, é claro, assim como a cena final com o encontro das pessoas reais é também totalmente dispensável e quebra completamente o momento lindo que acabamos de assistir.

Como deu para perceber, Lion é um filme com boas qualidades, mas está muito longe de ser perfeito. Se tivesse terminado na primeira parte e colocado nos créditos que Saroo cresceu e usou o Google para reencontrar a sua família perdida (ou colocado só a cena final do reencontro), não teria feito a menor diferença. Mentira, teria sim: teria sido muito melhor!

Minhas críticas profissionais preferidas sobre o filme: Plano Crítico, Cimena com Rapadura e Cinema em Cena.

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